“A democracia é sermos todos iguais e eu começo a sentir-me igual a ela. Sobretudo aqui somos todas iguais.” (p.49)
O conto de Vasco Graça Moura, Duas Mulheres em Novembro, mostra o encontro de duas mulheres num obscuro consultório de ginecologia em Lisboa. Naquele espaço vazio, em Novembro de 1975, as duas mulheres conversam uma com a outra e descobrem que, apesar das suas óbvias diferenças, partilham, além de um passado e vivências mais ou menos semelhantes, uma condição idêntica.
À medida que a conversa das mulheres desenrola, estabelece-se uma óbvia dicotomia em termos de espaço: o exterior, que reflecte a sociedade e o mundo fora das paredes do consultório, e o interior, inicialmente manifestado pelo discurso interior das personagens e gradualmente transformado no consultório onde as mulheres se sentam. O espaço exterior é conhecido apenas pelos diálogos das mulheres e surge como um mundo caótico e confuso, marcado por protestos e manifestações e pela euforia do pós-25 de Abril. O espaço interior, por seu lado, surge oposto a este. No consultório, nada existe para além das duas mulheres. É o lugar onde podem abandonar tudo aquilo que pertence e foi construído pelo exterior. O isolamento e abandono deste espaço, que acaba por se traduzir numa segurança, é marcado pelos frequentes discursos interiores das personagens. À medida que o consultório vazio se distancia do mundo exterior, o discurso interior deixa de ser necessário e passa-se a materializar nos diálogos das personagens. A apreensão e suspeita inicial das personagens evolui para confiança e acaba por tornar o consultório num espaço seguro e confortável oposto àquele caótico de onde as mulheres vieram.
Note-se também que o local de encontro, por se tratar de um consultório de ginecologia, vai adquirir feições femininas. Desta forma, ao se marcar o espaço do consultório como mundo feminino, o espaço oposto a este vai surgir como um local marcadamente masculino, criando-se uma dicotomia subjacente que se reflecte no masculino e no feminino.
Embora as duas mulheres surjam inicialmente opostas, sendo uma mais nova e outra mais velha e sendo uma de classe social mais alta e outra de classe social mais baixa, rapidamente se unem na sua condição feminina. Apesar de percursos de vida e vivências diferentes, ambas as mulheres identificam-se no mesmo ponto: a procura de sobrevivência numa sociedade predominantemente masculina.
Assim, o espaço exterior vai-se marcar como um mundo onde os valores masculinos imperam e onde as mulheres lutam pela sobrevivência, enquanto que o interior surge como um refúgio onde as duas mulheres se podem libertar e partilhar a sua condição. Curioso será reparar, à luz deste tema, que as mulheres aguardam a vinda do médico, que surge como um enviado do mundo masculino para libertar as duas mulheres do sofrimento. Com a conversa das mulheres, e a sua identificação enquanto seres femininos, a presença do homem salvador acaba por se desintegrar, vítima do próprio mundo que o tornou necessário. A solução acaba por recair na D. Pulquéria, parteira e mulher, recomendada pela enfermeira, também ela mulher.
O texto de Vasco Graça Moura introduz desta forma uma interrogação sobre a condição da mulher num mundo sobretudo masculino. O consultório apresenta-se como o espaço onde aquelas duas mulheres podem fugir a esse mundo, tornado caótico e com o qual em nada se parecem identificar. A revolução e a localização temporal apenas parecem reflectir a necessidade de encontro e de identificação das mulheres, até então perdidas num espaço hostil.

MOURA, Vasco Graça, Duas Mulheres em Novembro, Paço de Arcos: Contos Inéditos Visão, 2006.
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