A tragédia foi uma companheira próxima e permanente na vida do escritor: morte acidental do pai e suicídio do padrasto, morte acidental do seu melhor amigo causada pelo próprio Quiroga com uma arma de fogo, morte dos seus filhos, suicídio da sua esposa, exílio nas selvas argentinas e, finalmente, suicídio do próprio por ingestão de cianeto.
Após a leitura destas linhas qualquer um se sentiria extremamente interessado em ler seja o que for escrito por um homem que passou por semelhantes tragédias. Essa curiosidade mórbida, que alguns diriam ser inerente ao ser humano, poderia, no entanto, levar o leitor a falsos pressupostos em relação ao conteúdo da obra. Ao esperar algo tremendamente depressivo ou mesmo visões infernais e negativas no mundo, o leitor espantar-se-ia ao encontrar um retrato da morte como algo absolutamente normal e natural, fazendo parte da vida e completamente fora do controlo do homem. Não querendo cair de forma alguma em biografismos, Quiroga parece ter desenvolvido, de forma a lidar com a permanente tragédia na sua vida, uma ideia da morte como entidade omnipresente, inevitável, cega, cruel, mas também, e acima de tudo, natural.
É, apesar disto, não convém esquecer, e também por causa dessa visão da morte, igualmente mostrada o quão frágil é a relação humana consigo mesma e com a natureza, sendo constantemente dilacerada e rompida pela sempiterna presença da morte. Não significando isso, no entanto, a condenação do homem a uma existência desprovida de qualquer significado, aguardando a chegada da morte. Quiroga, apesar de consciente de uma futura e inevitável ruptura, deixa sempre espaço para o amor como elemento principal da coesão da existência humana.
A fragilidade da vida, que se consumirá inevitavelmente pela morte é exemplificada pelas histórias “À Deriva” e “O Mel Silvestre”. Nas duas histórias, a morte ocorre por meio do mundo natural. Tanto a cobra como as formigas (e o próprio mel) mostram-se como elementos da natureza e o homem nada pode fazer relativamente à sua força. Deixa-se dominar por completo por essa poderosa entidade que é a natureza e da qual faz parte a morte. Na primeira história são retratados os últimos minutos da vida de um homem, sendo precisamente esse o tempo que leva a morrer. São descritos os momentos desde a picada do animal, em que o veneno, o enviado e representante do mundo natural, penetra no seu corpo até ao momento em que o domina por completo e lhe rouba a vida, no momento do seu último suspiro. Em “O Mel Silvestre” ocorre semelhante situação. A morte vem por intermédio da natureza e consome totalmente a vida e o corpo do homem.
Por esta mesma razão se deve aceitar a morte como algo inevitável, sendo exemplo disso “Os buques dos suicidas”. A sua aceitação poderá ter um efeito libertador, levando o homem a olhar para a própria vida em vez de permanecer obcecado com a sua morte. No fundo, quem procura combater e evitar a morte, vive numa espécie de mórbido transe, acabando por cair num aparente suicídio, como acontece com os pescadores do conto.
Já os dois primeiros contos são um excelente exemplo da conjugação da tríade apresentada no título: amor, loucura e morte. E é precisamente nesta ordem que eles surgem. Em “O Solitário” é descrita essa decadência do amor à morte. Kassim é um homem trabalhador e adoentado que, apesar de tudo, ama a sua mulher. Esta, no entanto, apenas tem preocupações materiais. O amor de Maria recai apenas nas jóias, no dinheiro e no estatuto social, levando isso à loucura de Kassim, que a entrega à morte, trespassando-lhe literalmente pelo coração a jóia e a materialidade que ela tanto desejava.
Em “Uma Estação de Amor”, o primeiro conto da obra, mostra-se uma decadência ao longo das quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno, simbolizando o próprio amor de Lídia e Nébel, desde o momento em que se encontram numa Primavera até à sua destruição completa num Inverno. As recordações de Nébel, as recordações puras, como lhes chama, foram criadas em tempo de amor, num Verão, e destruídas e mortas anos depois num acto possivelmente de loucura.
Apesar de muitas outras e não menos intricadas ideias serem sugeridas pelas obscuras psicologias dos narradores e personagens nos restantes contos, pode-se observar assim, em Contos de Amor, Loucura e Morte, uma complexa relação entre a vida e morte e o estranho, mas fundamental, papel do amor e mesmo da loucura nesta relação.
É, apesar disto, não convém esquecer, e também por causa dessa visão da morte, igualmente mostrada o quão frágil é a relação humana consigo mesma e com a natureza, sendo constantemente dilacerada e rompida pela sempiterna presença da morte. Não significando isso, no entanto, a condenação do homem a uma existência desprovida de qualquer significado, aguardando a chegada da morte. Quiroga, apesar de consciente de uma futura e inevitável ruptura, deixa sempre espaço para o amor como elemento principal da coesão da existência humana.
A fragilidade da vida, que se consumirá inevitavelmente pela morte é exemplificada pelas histórias “À Deriva” e “O Mel Silvestre”. Nas duas histórias, a morte ocorre por meio do mundo natural. Tanto a cobra como as formigas (e o próprio mel) mostram-se como elementos da natureza e o homem nada pode fazer relativamente à sua força. Deixa-se dominar por completo por essa poderosa entidade que é a natureza e da qual faz parte a morte. Na primeira história são retratados os últimos minutos da vida de um homem, sendo precisamente esse o tempo que leva a morrer. São descritos os momentos desde a picada do animal, em que o veneno, o enviado e representante do mundo natural, penetra no seu corpo até ao momento em que o domina por completo e lhe rouba a vida, no momento do seu último suspiro. Em “O Mel Silvestre” ocorre semelhante situação. A morte vem por intermédio da natureza e consome totalmente a vida e o corpo do homem.
Por esta mesma razão se deve aceitar a morte como algo inevitável, sendo exemplo disso “Os buques dos suicidas”. A sua aceitação poderá ter um efeito libertador, levando o homem a olhar para a própria vida em vez de permanecer obcecado com a sua morte. No fundo, quem procura combater e evitar a morte, vive numa espécie de mórbido transe, acabando por cair num aparente suicídio, como acontece com os pescadores do conto.
Já os dois primeiros contos são um excelente exemplo da conjugação da tríade apresentada no título: amor, loucura e morte. E é precisamente nesta ordem que eles surgem. Em “O Solitário” é descrita essa decadência do amor à morte. Kassim é um homem trabalhador e adoentado que, apesar de tudo, ama a sua mulher. Esta, no entanto, apenas tem preocupações materiais. O amor de Maria recai apenas nas jóias, no dinheiro e no estatuto social, levando isso à loucura de Kassim, que a entrega à morte, trespassando-lhe literalmente pelo coração a jóia e a materialidade que ela tanto desejava.
Em “Uma Estação de Amor”, o primeiro conto da obra, mostra-se uma decadência ao longo das quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno, simbolizando o próprio amor de Lídia e Nébel, desde o momento em que se encontram numa Primavera até à sua destruição completa num Inverno. As recordações de Nébel, as recordações puras, como lhes chama, foram criadas em tempo de amor, num Verão, e destruídas e mortas anos depois num acto possivelmente de loucura.
Apesar de muitas outras e não menos intricadas ideias serem sugeridas pelas obscuras psicologias dos narradores e personagens nos restantes contos, pode-se observar assim, em Contos de Amor, Loucura e Morte, uma complexa relação entre a vida e morte e o estranho, mas fundamental, papel do amor e mesmo da loucura nesta relação.

QUIROGA, Horacio, Contos de amor, loucura e morte (1917), (trad. de Ana Santos), Lisboa: Cavalo de Ferro, 2003.
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