“…almas mortas eram, em certo sentido, objectos absolutamente desprovidos de valor.” (p.51)
“Do que tu sofres é de sonolência espiritual. Adormeceste, pura e simplesmente, e não adormeceste por saciedade ou por cansaço, mas por falta de impressões e de sensações vivas.” (p.446)
Almas Mortas é possivelmente o texto mais lido de Nikolai Gógol e considerado a sua incompleta obra-prima. Projectado inicialmente para uma extensa narração que se distribuiria em três tomos, Gógol acabou por concluir apenas o primeiro. O segundo, embora já estivesse quase findado, foi queimado, propositada ou acidentalmente, pelo escritor em delírio. A estrutura tripartida da obra procura referenciar A Divina Comédia de Dante, espelhando o primeiro Tomo o Inferno e especulando-se o segundo e o terceiro o Purgatório e o Paraíso.
O primeiro Tomo, publicado em 1841, tornou-se um fenómeno e de imediato reclamou-se uma continuação. Nikolai Gógol procurou a escrita ao longo de vários anos, mas o segundo Tomo nunca chegou a ser publicado. Do fogo, salvaram-se apenas alguns capítulos publicados nas edições modernas juntamente com o primeiro Tomo.
Desta forma, a primeira parte de Almas Mortas, seguindo a estrutura dantesca, simboliza o Inferno. E, de facto, ao procurar espelhar a identidade e a cultura russa, o primeiro Tomo foca-se sobretudo nos vícios e nas deficiências da sociedade que retrata. Procurar-se-ia, na continuação pela segunda e terceira parte, após a problemática exposta, a redenção e a salvação do mundo russo.
De maneira a permitir esta evolução, o herói proposto surge afastado da heroicidade convencional. Pável Ivánovitch Tchítchikov é descrito acima de tudo como “um senhor nem bonitão, nem feio de todo; nem gordo nem magro; não se diria que fosse muito velho, nem tão-pouco muito jovem.”(p.13). Daqui se inferem dois elementos importantes. Em primeiro lugar, Tchítchikov, tão generalizado fisicamente, acaba por se assemelhar a qualquer habitante russo, independentemente da posição social, riqueza ou actividade. O “herói” quase que surge assim desprovido de identidade, podendo representar, numa perspectiva mais simbolista, qualquer elemento da sociedade Russa.
Depois, a vaga descrição de Tchítchikov afasta-o da convenção do herói que o colocaria num ponto de uma balança em oposição a outro, representando o Bem em oposição ao Mal, numa manifestação das clássicas dualidades e espelhos do ser humano. Em vez disso, Tchítchikov surge numa posição central, virando-se ora para um ora para o outro lado. Esta dissociação com um conceito ou ideia de Bem é o que permite a Tchítchikov enveredar pelo projecto que o leva a viajar pela Rússia.
Tchítchikov procura a aquisição das Almas Mortas possuídas pelos proprietários rurais que visita. “Alma” refere o servo que fica a cargo de um proprietário. O recenseamento das “Almas” é obrigatório, assim como o pagamento de um imposto sobre o número total de servos detidos. De modo a não sobrecarregar o Estado com burocracias, o proprietário apenas pode declarar uma alma como morta aquando do próximo recenseamento, ficando a pagar o imposto da “Alma Morta”, considerada, para efeitos legais, como viva. O objectivo de Tchítchikov passa assim por adquirir almas mortas, inúteis para os proprietários, de modo a mais tarde penhorá-las para adquirir capital suficiente para comprar uma propriedade. A personagem principal viaja assim pela Rússia e pelas propriedades de N. à procura de Almas Mortas, revelando ao mesmo tempo uma sociedade retrógrada, burocrática e burguesa, ofuscada pela influência estrangeira. O romance de Nikolai Gógol é sobretudo uma crítica social à Rússia pós-napoleónica. No entanto, a crítica não pretende, ou não pretenderia, apenas apontar os defeitos (Tomo I) mas apontar as saídas e soluções (Tomo II e III). Desta forma, a crítica de Gógol não se foca tanto nas instituições e estruturas estatais que, apesar de falíveis, não são tão graves como a crise espiritual e de valores da Sociedade Russa. No fundo, segundo o texto, não se trata de uma problemática de instituições, mas uma de comportamentos e atitudes.
O conceito de Almas Mortas, servos falecidos que constam como vivos e que custam dinheiro aos proprietários, torna-se assim completamente inútil. A Alma Morta é algo que nada faz nem pode fazer, mas que prejudica aquele que a detém. O mesmo se pode associar ao povo russo, virado cada vez mais para o estrangeiro e ignorando a Rússia. Tal como a Alma Morta, torna-se inútil ao Estado e à sociedade, mas a sua simples existência é-lhe prejudicial. Para além de Tchítchikov, também as personagens do Tomo I se podem considerar Almas Mortas. Quer seja Manílov, Koróbotchka, Sobakévitch, Nozdriov ou Pliúchkin, cada um representado como mais falível e defeituoso que o outro.
Os capítulos sobreviventes do Tomo II apresentam-se mais optimistas e, embora revelem um Tchítchikov também oportunista, caminham em direcção a uma redenção. As personagens de Tentétnikov e Konstanjoglo surgem já como profetas do caminho da salvação russa, procurando a felicidade no campo em vez da ilusória e fútil cidade.
Com estas duas personagens do Tomo II é fácil a percepção do caminho que Gógol pretenderia seguir para os textos em falta. Uma das problemáticas da Rússia passaria pela atenção dada ao mundo estrangeiro, esquecendo-se da sua própria beleza natural. As personagens do Tomo I demoravam-se em bailes e conversas inúteis, envolvendo-se em tramas sociais produzidas pela sua própria imaginação. Tchítchikov vê-se forçado a fugir de N., deixando-a num alvoroço social, crendo que Tchítchikov tinha como plano o rapto da filha do Governador ou era mesmo Napoelão disfarçado.
Assim, a cidade é o local dos defeitos e dos vícios, e o desejo de aproximação a outras capitais Europeias condenável. Tal como S. Petersburgo e Moscovo, a cidade é o espaço viciado, impuro e conspurcado. A solução recai no campo e na propriedade rural sob um forte domínio. Os espaço de Tentétnikov e Konstanjoglo e a exortação das suas paisagens e virtudes leva a crer que é o espaço da salvação, oposto à corrupta cidade.
Almas Mortas, embora incompleta, cria-se como uma crítica ao estado social da Rússia pós-Napoleónica. A cidade surge como o local dos defeitos e vícios ao procurar a aceitação e a aproximação ao estrangeiro. O povo que a habita é, por sua vez, equiparado a uma Alma Morta, inútil e prejudicial ao Estado. O incompleto Tomo II sugere o campo e a estrutura rural como uma possível solução, assim como uma hipótese de redenção para o vigarista Tchítchikov. O desenlace da narração recai no domínio especulativo, mas esta incompletude não impediu a obra de se tornar um clássico nem de Gógol se afirmar como um dos autores russos de referência.
GÓGOL, Nikolai, Almas Mortas (1841), trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.
ISBN: 972-37-0681-4

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