Apesar de se tratar de um livro diferente e de não se sujeitar, como outros, a uma análise por uma perspectiva mais literária, as crónicas de Gonçalo Cadilhe, e em especial a sua reunião num só volume, merecem alguns apontamentos. Em primeiro lugar, após a leitura dos textos, assim que se vira a última página, surge um incontornável sentimento de incompletude. Embora o livro não se construa como um romance, ou como uma narrativa de viagens, a compilação das crónicas deixa insatisfeito o desejo que se cria no leitor de saber mais sobre aquele encontro ocasional, aquele companheiro de viagem ou aquele guia. No momento em que uma personagem é introduzida, nunca se revelando as condições que a levaram a interagir ou a cruzar caminho com o autor, é imediatamente posta de lado e ignorada, seja no parágrafo ou na crónica seguinte.
Este formato é perfeitamente legítimo quando se lê o texto num periódico e se segue o autor apenas durante uns breves minutos semanais, mas em livro a identificação com a viagem e com o viajante torna-se difusa e complicada. Não existe um acompanhamento do autor, que parece saltar as fronteiras e materializar-se ora num ou noutro país, revelando apenas fragmentos da sua experiência. A edição das crónicas em livro fracassa ao não permitir uma continuidade da viagem e dos confrontos. O leitor distancia-se dos acontecimentos, embrenhando-se num determinado acontecimento ou espaço para depois ser puxado para outro local, com personagens e situações diferentes, e não regressar mais ao espaço de onde veio.
As poucas fotografias acabam por seguir o mesmo caminho do texto. Aparentemente aleatórias, e embora sigam cronologicamente o percurso delineado, não chegam a satisfazer toda a curiosidade que o texto parece incutir em quem o lê. Não se requer, no entanto, uma espécie de reportagem, com variadas fotografias dos espaços, mas uma ilustração coerente que procurasse reflectir os momentos chaves da viagem, capturando os principais intervenientes ou momentos. E sabendo também que não é a principal função de Gonçalo Cadilhe, as fotografias parecem ainda dotar-se de uma marca amadora e pouco profissional.
Por outro lado, e este será um dos aspectos positivos da compilação, a incompletude que marca todo livro poderá ser vista como algo propositado e até benéfico para o leitor, insistindo em criar uma vontade de seguir as pisadas do autor e, de mochila às costas, iniciar viagem pelo mundo. O desejo de ultrapassar as insuficiências e as lacunas do livro só alguma vez será ultrapassado com um testemunho em primeira mão.
Em segundo lugar, seguindo a insuficiência do livro, o narrador demora-se por vezes em acontecimentos pouco ou nada interessantes, que não contribuem para a globalidade do projecto, insistindo demasiado em citações e referências intelectuais que fogem ao escopo do livro.
Não seria também de todo absurdo assumir que no leitor se forma um outro tipo de questão, sobretudo quanto à viabilidade de todo o projecto. E uma das soluções passaria por um prefácio ou posfácio detalhado que abordasse toda a questão logística antes, durante e depois da viagem, enriquecendo todo o trabalho de uniformização das crónicas e colmatando a questão da viagem fragmentada pela crónica incompleta. No fundo, se a incompletude se generalizar e se o desejo do leitor em criar o seu próprio planisfério pessoal for mais forte, o aspirante a viajante carece de todo e qualquer tipo de informação necessária para um projecto deste ou semelhante género. Novamente, não se advoga que a publicação das crónicas se tornasse numa espécie de livro ou guia para aspirantes a viajantes, com conselhos e dicas de viagem, segurança, aquisição de vistos, etc. O que se defende é a uniformização de todo o projecto em livro, com os elementos fundamentais sobre a sua génese e desenvolvimento, que o extrapolassem da mera edição e republicação das crónicas já vistas no jornal. Existe uma infinidade de possibilidades para um projecto desta envergadura se materializar em livro. Em vez de se optar por algo que de facto o concluísse e o fechasse definitivamente, caiu-se numa simples reunião e reedição das crónicas publicadas pelo Expresso, com meia dúzia de fotografias que parecem ter sido retiradas do fundo da gaveta, que pouco acrescenta à publicação anterior.
Embora seja uma excelente aquisição e uma agradável leitura, o livro Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe não consegue ultrapassar a fragmentação e incompletude que se criaram com as crónicas semanais. Apresenta-se, no final, como um trabalho que se afasta da grandeza dos dezanove meses vividos pelo autor e o objectivo de finalizar o projecto referido na nota introdutória parece não ter sido atingido. No entanto, e ignorando o que o livro poderia ter sido e olhando para o que é, a sua funcionalidade como instrumento de combate à típica sedentariedade portuguesa não é ignorada e será sempre uma óptima e recomendada possibilidade de leitura.




