A narração do romance não se centra na descrição das acções das personagens, mas nos seus pensamentos e percepções do mundo exterior. Adoptando um discurso que procura imitar o decorrer do pensamento, cria-se um mundo baseado apenas nas experiências e sentimentos provocados pelo contacto com o exterior. Um dos principais temas que surge com o explorar desta realidade subjectiva é a relação da interioridade e do Ser Humano com o Tempo e com a sua passagem, simultaneamente destruidora e imortalizante.
O Tempo é assim um dos aspectos dominantes do romance, afectando as personagens tanto interiormente como exteriormente. A preocupação com o seu efeito destruidor é notória em Mrs. Ramsay, com a sua necessidade de criar momentos eternos e persistentes, em Mr. Ramsay, assombrado pela ideia da mente mortal, e em Lily Briscoe, que se perturba com a efemeridade da sua arte. A dicotomia que surge daqui é baseada na relação entre Estabilidade e Mudança. Todas as personagens procuram estabilidade nas suas vidas face à força do Tempo, causador de mudança. A natureza que rodeia as personagens segue o mesmo caminho, ao encarnar uma existência dual similar à do Tempo. As ondas que surgem na praia, com o seu ritmo constante, mostram a estabilidade da natureza, mas a sua constância é o que lhes concede também o seu poder destrutivo. O mesmo se sugere com as árvores, estáveis espacialmente, mas em constante evolução temporalmente. No fundo, a natureza iguala-se ao Tempo, revelando-se tanto estável como destruidora. E o Ser Humano, como produto da natureza, constrói-se da mesma forma. A estabilidade da sua realidade, a subjectiva, só se atinge através da memória e só enquanto ela durar. A morte será o agente finalizador de todo o processo e a consumidora de toda a experiência e estabilidade subjectivas.
A morte, tal como o tempo, é um elemento com uma forte presença no romance. O seu papel mais óbvio, aliado naturalmente ao Tempo, surge na divisão tripartida da obra. A primeira secção, The Window, narra os eventos numa única tarde, seguindo até ao anoitecer, enquanto que a terceira secção, The Lighthouse, narra os eventos de uma manhã. No meio surge a noite, que rouba, entre outras coisas, dez anos de vida às personagens. A secção intermédia é bastante mais reduzida que as restantes, e embora as outras ocupem apenas uma tarde ou uma manhã, Time Passes narra em poucas páginas os eventos de uma década inteira. Esta evolução, de extensões diferentes, além de mostrar a passagem relativa e subjectiva do tempo, é marcada por uma narração objectiva. Deixando as realidades interiores das personagens, o narrador parece pairar por uma casa vazia, quase como um fantasma, obtendo informações apenas pelos eventuais visitantes da casa. A ideia transmitida é a da realidade como algo real apenas quando percepcionada por alguém. No fundo, sem a mente humana e sem a memória, a realidade não existe e tudo desaparece numa casa vazia, tornando-se o tempo também ilusório, manifestado na curta extensão da segunda parte. Este estado equivale a uma eterna noite, como se sugere pelo final da primeira secção e pelo início da segunda, que se assemelha e é marcada pela morte. O escorregar do xaile, revelando o crânio do porco na parede, é suporte desta ideia, mostrando a noite e o sono, irrelevantes ao tempo e inerentes à morte.
Elemento central na análise do romance é o Farol, que se torna representante da acção e da presença do Tempo e da Morte sobre as personagens. Na segunda parte, a luz do farol, penetrando na casa vazia, reflecte a presença da morte e a passagem do tempo, mesmo sem a acção e a percepção da mente humana. São os elementos superiores que ultrapassam o domínio e a compreensão do Ser Humano e que condicionam eternamente a sua existência. A luta das personagens passa precisamente pela compreensão da incapacidade de conquistar e dominar estas duas forças destrutivas. A revelação final de Lily Briscoe vai ser reflexo desta compreensão. Enquanto Mr. Ramsay rejeita a sua vivência interior e egocêntrica, virando-se para o exterior e elogiando o trabalho de James, Lily Briscoe aceita a sua vivência no presente e desiste da procura da permanência e estabilidade atingidas pela arte. Mr. Ramsay, ao mostrar simpatia e ao elogiar outra pessoa, ignora todos os receios de falta de genialidade e esquece o seu isolamento psicológico, sucumbindo às necessidades actuais dos que o rodeiam. Lily, por seu lado, aceita a vivência presente a desiste de pensar sobre o futuro da sua arte, o que a leva a concluir finalmente a sua obra. As revelações ou epifanias que atingem estas personagens levam a que se deixem de preocupar com a força opressora do Tempo, impossível de conquistar, e a que se concentrem no momento.
Existe desta forma, na terceira secção do romance, dois acordares. Aquele que é feito pela manhã, na casa dos Ramsays, depois de uma longa noite marcada pela morte, pela inevitável passagem do tempo e pela ausência de uma consciência subjectiva, e aquele que é feito no momento em que Lily Briscoe e Mr. Ramsay concluem as suas viagens. E, na verdade, enquanto o primeiro é um acordar de uma vivência sonâmbula, o segundo é um renascer que lhe põe fim.
A genialidade de To the Lighthouse passa assim pela completa centralização do mundo subjectivo e da personagem, passando para segundo plano o mundo objectivo e da acção. O resultado é uma reflexão acerca da influência do Tempo e da Morte na interioridade individual e na forma como esta se constrói como a realidade central, estabelecendo-se uma luta pela estabilidade e permanência face à opressão dos dois grandes poderes destrutivos. Sendo também uma obra com variadas possibilidades de leitura, ficam demasiados elementos e relações por discutir. Um deles será a questão da União e da Separação na exploração das realidades subjectivas das personagens e a forma como se constrói a ideia, a identidade dos géneros ou mesmo o papel da Arte na consciência do Ser Humano.

ISBN: 0-14-118341-1



